Comprimia-os sobre seu corpo quando alguém se aproximava, ficava horas junto a elas só para ter a certeza que eram suas.
Sempre que a perguntavam o que estava escrito,
Hannah respondia qualquer coisa
com ar de muitos segredos.
Era uma tarde chuvosa e cinza quando notaram a ausência de Hannah.
Depois de horas de busca pela menina
a encontraram no porão.
Sem ar, com o coração em pleno descanso.
Não se via muito sua face, seus cabelos encobriam a maior parte de seu rosto.
Usava seu moletom favorito e seu batom cor de boca,
o qual proporcionava um contraste com tamanha palidez em sua face.

Não havia mais vida.
Erick pensou ter encontrado resquício de um sorriso em seu rosto enquanto a observava.
Foi uma morte bonita,
uma morte leve...
Se não fosse a imobilidade e sua falta de cor,
pensaria que estava apenas adormecida.
A paz que ela possuía durante a vida continuava estampada na sua morte.
Erick era o único que sabia o esconderijo de seus papeis.
Ele a vira duas vezes tocando o mesmo livro na prateleira de seu quarto.
Era um livro com capa cor de poeira e saudade,
escrito por alguém que não tivera sucesso na área literária,
um desconhecido poeta.
Não hesitou em procurar os papéis,
sentiu um misto de culpa e curiosidade.
O da curiosidade se sobressaiu.
Subiu as escadas em silencio absoluto.
Somente seus passos possuíam voz naquele momento.
Entrou no quarto de Hannah e logo avistou a estante.
Lá estava o livro e dentro dele todas aquelas folhas avulsas
cheias de pensamentos.
Agora aquelas folhas eram suas.
Os segredos da menina estavam agora em suas mãos..
Quais seriam esses segredos?
-Possuíam cor, data ou alguma forma?
Pensava ele olhando para todos aqueles papéis

Tocou as folhas mas não as leu até chegar em sua casa.
Subiu as escadas e entrou em seu quarto.
Nem se lembrava da menina que havia morrido.
Ele queria os segredos,
nada mais.
As folhas estavam amassadas,
devido ao tempo que passavam nas mãos de Hannah.
Eram irregulares no tamanho.
Amareladas na cor.
Não havia nada nelas além de algumas palavras avulsas.
Nenhuma sequencia ou ordem de pensamento.
Hannah não possuía um passado digno de ser lembrado,
nem sonhos suficientes que a fizessem escrever.
Pobre garota sem história,
sem sonhos e agora,
sem vida.
Hannah tinha sido apenas um rascunho pensado,
incapaz de se fazer verbo.
-O que ela pensava ao segurar essas folhas?_pensava Erick consigo mesmo.
-O que a fazia pensar que eram especiais?

Se havia algo que Hannah sabia fazer era atribuir valores as coisas simples da vida,
mas super estimar folhas com palavras sem sentido?
Talvez ela as tocasse para imaginar historias que nunca viriam a ser escritas,
aquelas que são tão fortes que papeis não suportariam seu peso.
Histórias sonhadas, com múltiplos finais,
os quais poderiam ser reinventados todos os dias,
quantas vezes desejasse,
adaptáveis a necessidades de sua alma.
As folhas eram especiais por não terem passado,
nem manchas,
nem historias.
Assim como ela.
Hannah logo será esquecida, mas aquelas folhas talvez possuam um tempo de gloria maior que o dela.
Ninguém tem as respostas sobre aqueles papeis,
mas cada um gosta de pensar no que significavam.
O que poucos sabiam era que Hannah tinha medo dos finais,
por isso nunca terminava nada,
sua vida era feita de metades.
Desse modo poderia pensar sobre os cem caminhos que poderiam ser percorridos,
não limitar sua vida a um destino concreto.
O medo de possuir historias repetidas e enfadonhas
lhe eram como fantasmas.
Ela conseguiu se fazer historia por não possuir prefácio nem dedicatória.
















































